quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Chimpanzés podem desaparecer em 2015

Investigador sul-africano Eugene Cussons, que dirige o projecto Chimpanzee Eden, com o apoio do Instituto Jane Goodall, diz que em seis anos poderão deixar de existir estes primatas na natureza se caça e tráfico não pararem
Em 2015, ou seja, dentro de seis anos, poderão não subsistir chimpanzés no estado selvagem. O alerta é do jovem investigador sul-africano Eugene Cussons, que dirige o Chimpanzee Eden, um projecto apadrinhado pelo Instituto Jane Goodall -a bióloga britânica celebrizou-se pelas suas descobertas sobre estes primatas e pelo trabalho de conservação que tem desenvolvido em África.

Numa entrevista desassombrada, citada pelo diário espanhol El Mundo, Eugene Cussons, de 29 anos, diz que a caça ilegal e o tráfico destes animais são as maiores ameaças que eles enfrentam actualmente.

"O tráfico de animais em perigo de extinção é uma das actividades ilegais que mais dinheiro movimentam no mundo", afirmou o jovem investigador, sublinhando que se "não evitarmos [estas actividades], dentro de sete anos não haverá mais chimpanzés a viver em liberdade".

Segundo Eugene Cussons, os efectivos nas populações destes animais estão actualmente em "queda acelerada".

Os números que o próprio avançou na entrevista, citada pelo diário espanhol, são claros: em 1900 existiam cerca de dois milhões de chimpanzés na natureza; há cinco anos, não havia mais de 200 mil. E se a caça ilegal e tráfico destes animais se mantiver ao actual ritmo, em menos de uma década, eles deixarão mesmo de existir no estado selvagem, alerta.

Combater esta caça e comércio ilegal, segundo Cussons, passa também pela "tomada de consciência das pessoas, de que não devem apoiar os espectáculos com animais que estejam em perigo de extinção".

"É necessário deixar de popularizar estes animais, para que deixe de haver quem os queira coleccionar ou ter como mascotes, o que mantém a caça e o tráfico", disse ainda.

Eugene Cussons é também o protagonista e autor de uma série de 12 episódios, sob o título Paraíso Chimpanzé, no canal Discovery. Aí conta histórias de chimpanzés caçados ilegalmente, do seu cativeiro e, em alguns casos, do seu resgate. - F.N.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ressuscitar o Neanderthal

A sequenciação completa do genoma (totalidade de bases de ADN, molécula que contém o código da hereditariedade) dos parentes humanos desaparecidos da Terra há 30 mil anos é uma das notícias mais esperadas para este ano. Embalados pelo genoma quase recuperado do mamute dos gelos siberianos, os cientistas voltam-se agora para as ossadas do homem de Neanderthal com vista a reconstituir o genoma deste hominídeo.




No entanto, para Eugénia Cunha, antropóloga da Universidade de Coimbra, as condições de preservação são muito diferentes. "O gelo dá uma maior garantia de preservação do ADN do que o de um fóssil de Neanderthal como o que foi descoberto em 2006 na Croácia, cujo material genético está a ser analisado".

Na realidade, o feito só pôde ser obtido graças a avanços recentes nas técnicas de leitura de ADN, que ao longo dos últimos 15 anos transformaram a decifração de genomas de missão hercúlea e milionária num procedimento quase banal de processamento de dados.

As amostras de ADN do mamute estavam fortemente degradadas, tiradas do pêlo de indivíduos que morreram há cerca de 20 mil anos e foram preservados no gelo. Mas, tomando por base o genoma do elefante africano, um parente próximo, os cientistas vão concluir a tarefa.

Agora, o grande objectivo dos investigadores é sequenciar o genoma do Neanderthal dentro de dois anos.

Para ressuscitar um mamute há uma série de formidáveis obstáculos a ultrapassar que a genética actual ainda não pode resolver. Mas são puramente técnicos e que serão resolvidos mais tarde ou mais cedo. E o que dizer de um homem de Neanderthal? "Não somos apenas genoma. Ainda falta um bom bocado para lá chegar", afirma Eugénia Cunha.

O genoma em estudo do Homem de Neanderthal revelou que na Europa viveram muito poucos indivíduos, o que facilitou a sua extinção.

Ao analisar os restos fósseis procedentes da Roménia, Portugal e República Checa, foram detectadas características tanto do homem de Neanderthal como do homem moderno, o que indica um possível cruzamento entre ambas as espécies depois de uma coexistência por cerca de 100 mil anos.

Este hominídeo, que povoou a Europa entre 170 mil e 30 mil anos poderá ter-se extinguido não subitamente: a sua população terá decrescido paulatinamente, misturando-se com o Homo Sapiens (menos forte, mas com um cérebro mais desenvolvido) cultural e sexualmente. Os últimos neandertais poderão ter vivido na Península Ibérica.

Comparando com o homem moderno, os neandertais eram mais robustos e possuíam feições morfológicas distintas, especialmente no crânio.

Os neandertais eram muito hábeis na fabricação de utensílios para a caça e de ferramentas. Várias pesquisas apontam para que possam ter sido caçadores sofisticados, mostrando que possuíam um total controlo dos materiais que encontravam na natureza e do local em que viviam.

Dos vários utensílios criados destacam-se artefactos elaborados sobre lascas, semelhantes a lâminas regulares e outros com entalhes, laterais e denticulados.

O milhão de bases já sequenciadas permite afirmar que a semelhança com o genoma do homem moderno é de 99,5% (99% com o do chimpanzé).

A descoberta do gene FOXP2 no genoma do homem de Neanderthal sugere que estes seres tinham a faculdade de falar.


Mais fortes do que o Homo Sapiens, os neandertais dominaram a Europa glacial durante cerca de 200 mil anos.

Mário Gil

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Biólogos descobriram dez novas espécies de anfíbios na Colômbia

Uma equipa de biólogos da Conservation International descobriu nove espécies de sapos e uma de salamandra nas montanhas da Colômbia. A notícia foi divulgada hoje, Dia Mundial das Zonas Húmidas.

As novas espécies, incluindo três sapos venenosos, foram descobertas na zona montanhosa de Tacarcuna, perto da fronteira da Colômbia com o Panamá. Esta região servia de passagem entre espécies de plantas e de animais entre a América do Norte e a América do Sul.

“Sem dúvida alguma podemos dizer que esta zona é uma verdadeira Arca de Noé”, comentou José Vicente Rodriguez-Mahecha, director científico da Conservation International na Colômbia, citado pela agência Reuters.

Actualmente, Tacarcuna é uma zona que sofre com o abate florestal, exploração de gado, caça, exploração mineira e fragmentação dos habitats. Estima-se que 30 por cento da sua vegetação natural já desapareceu.

“O elevado número de novas espécies de anfíbios é um sinal de esperança, mesmo com a grave ameaça de extinção que enfrentam estes animais em muitas outras regiões do mundo”, acrescentou.

Robin Moore, especialista em anfíbios na Conservation International, sublinhou que actualmente um terço de todas as espécies de anfíbios do planeta está ameaçada de extinção. “Os anfíbios são muito sensíveis às mudanças no ambiente (…). São uma espécie de barómetro e são os primeiros a responder a essas mudanças, como por exemplo as alterações climáticas”, explicou.

Os anfíbios ajudam a controlar a progressão de doenças como a malária e o dengue porque se alimentam dos insectos que transmitem essas doenças às pessoas.

A equipa quer trabalhar com as populações locais de Tacarcuna para que “encontrem formas mais sustentáveis para proteger os seus recursos naturais, também para seu benefício”, considerou Moore.

Hoje comemora-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, habitat de muitas espécies de anfíbios, para relembrar a assinatura da Convenção de Ramsar, a 2 de Fevereiro de 1971.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ratinhos obesos respondem à hormona da saciedade

Quando, há pouco mais de 13 anos, foi descoberta no ratinho a leptina – uma hormona produzida pelos tecidos adiposos que diz ao cérebro para “desligar” o apetite quando já comemos o suficiente –, pensou-se que vinha aí o medicamento-milagre contra a obesidade. Só que o cérebro das pessoas obesas (e dos ratinhos) se revelou insensível à leptina: por alguma razão, os seus neurónios não “ouvem” o sinal de saciedade. Procuraram-se então substâncias que devolvessem aos neurónios a sua sensibilidade à hormona. Mas em vão. Até agora.

Umut Ozcan e colegas, de Harvard, que amanhã publicam um artigo na Cell Metabolism, desvendaram a provável razão da resistência à leptina associada à obesidade e a seguir conseguiram restaurar a resposta à leptina no cérebro de ratinhos obesos.

Acontece que, nas células do hipotálamo (a região cerebral onde a leptina actua), a estrutura que fabrica as inúmeras proteínas de que a célula precisa não consegue “dar conta do recado”, falhando provavelmente no fabrico da molécula que normalmente receberia o sinal da leptina.

Mas, com a ajuda de uma de duas substâncias (cujo nome de código é PBA e TUDCA) destinadas a aliviar essa situação de stress celular – e que para mais já foram aprovadas para uso clínico nos EUA –, os ditos neurónios passam a responder novamente ao sinal de saciedade, fazendo os ratinhos tratados com leptina perderem peso mesmo quando alimentados com dietas ricas em gorduras. “Se funcionar nas pessoas, isto poderá servir para tratar a obesidade”, diz Ozcan.

Ana Gerschenfeld

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pólen desvenda crimes

Os microscópicos grãos de pólen das plantas poderão vir a derrubar a ideia de que há crimes perfeitos, ao dar pistas seguras para deslindar casos que desafiam os limites da investigação criminal.


A metodologia utilizada por meia dezena de investigadores forenses no Mundo, entre os quais Mafalda Faria, que desenvolve o seu trabalho na Universidade de Coimbra e no Instituto Nacional de Medicina Legal, não é mais do que a análise do pólen e de esporos de plantas que ficam agarrados ao corpo de pessoas e de objectos. O contributo de estudos de Mafalda Faria foi solicitado pela PJ para ajudar a reconstituir crimes como os do jovem universitário que assassinou a ex-namorada em Coimbra. "Para certas situações, a Palinologia é a única que pode resolver. Se, por exemplo, se encontra a arma do crime sem impressões digitais, poderá ter pólen, não daquele local, mas da sua proveniência", explica a investigadora. C.M.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A longa viagem de Darwin para provar que os humanos são todos da mesma espécie

Foi já no fim da sua viagem marítima de cinco anos à volta do mundo, no navio da Real Marinha Britânica HMS Beagle, que Charles Darwin ouviu um grito que não deixou de ouvir toda a vida. Foi na zona de Pernambuco, no Brasil. "Ouvi os gemidos mais inspiradores de pena, e só posso suspeitar que algum pobre escravo estivesse a ser torturado", relata no seu Journal, o diário de viagem a bordo do Beagle.

Se Darwin não viu o que se passou dessa vez, tinha já visto muitos exemplos da forma como os escravos eram tratados no Brasil. "Perto do Rio de Janeiro vivi frente a uma velha senhora que tinha um instrumento para esmagar os dedos das suas escravas. E fiquei numa casa onde um jovem mulato era insultado, espancado e perseguido todos os dias e todas as horas. Era o suficiente para quebrar o espírito até do animal mais baixo", escreveu no mesmo livro. "Agradeço a Deus por nunca mais ter de visitar um país esclavagista", concluía.

Darwin, antiesclavagista? Não é essa a história que costumamos ouvir contar sobre o homem que desenvolveu a teoria da evolução das espécies através da selecção natural. Mas esse é o foco de um novo livro lançado no Reino Unido, poucos dias antes de se comemorar, hoje, o nascimento de Charles Darwin – 12 de Fevereiro de 1809, o mesmo dia em que nasceu Abraham Lincoln, o Presidente dos Estados Unidos ligado à luta pela abolição da escravatura.

Darwin's Sacred Cause – Race, Slavery and the Quest of Human Origins (em tradução literal, A Causa Sagrada de Darwin – Raça, Escravatura e a Busca das Origens Humanas) foi escrito por Adrian Desmond e James Moore, também autores de uma biografia de Charles Darwin. Desta vez analisam o meio cultural e familiar do homem que se tornou um herói da ciência.

Quando Darwin publicou o livro que o transformou num ícone da ciência moderna – Sobre a Origem das Espécies através da Selecção Natural (tradução literal da obra publicada em Portugal pela D. Quixote com o título A Origem das Espécies) –, propondo um mecanismo natural como o motor da evolução, em 1858, discutia-se se os seres humanos seriam apenas uma espécie única, em todo o mundo, ou se negros, asiáticos e demais tipos humanos eram espécies separadas. A visão de um mundo em que cada espécie foi criada autonomamente, no local onde se encontra hoje, estava a vingar nos Estados Unidos – e favorecia a política esclavagista, que em breve viria a desencadear a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Se negros e brancos fossem de facto espécies separadas, e não apenas diferentes raças, poder-se-ia justificar a visão do mundo dos supremacistas brancos, como os proprietários de plantações no Sul dos Estados Unidos. O homem branco era visto como o pináculo da criação. E os negros como criaturas inferiores, naturalmente destinados a servirem o homem branco. A ciência em que se baseavam estas ideias partia de coisas como o estudo de crânios – para analisar as suas mossas, que revelariam a dimensão dos vários órgãos do cérebro, como o da justiça ou da consciência – e o tamanho dos cérebros.

Havia algumas gradações nesta escola antropológica americana. Samuel Morton, que era apenas uma década mais velho que Darwin e tinha passado pela Universidade de Edimburgo, tal como o autor da teoria da evolução, era o expoente da abordagem positivista: não deixava que Deus entrasse nos seus estudos de crânios, cuja capacidade mediu, enchendo-os primeiro com sementes de mostarda e depois com bolinhas de chumbo. Mas introduziu uma série de desvios estatísticos que distorcia as suas obras monumentais, como Crania Americana, relatava o historiador da ciência e biólogo Stephen Jay Gould no livro A Falsa Medida do Homem (Quasi Edições).

Outros, como o suíço Louis Agassiz, radicado nos Estados Unidos e professor na Universidade de Harvard, introduziam uma dimensão mística no estudo das raças e espécies. Agassiz, que aliás muito irritava Darwin, garantem Desmond e Moore – um dos capítulos do livro chama-se Oh for shame Agassiz, pegando num comentário escrevinhado por Darwin –, acreditava que a vida na Terra tinha sido recriada muitas vezes, depois de cataclismos cíclicos. Mas não tolerava a ideia de que as espécies se fossem transformando, evoluindo e espalhando pelo mundo. "Embora tivesse havido uma sucessão de tipos 'mais elevados', dos peixes aos humanos, explicava-os como a revelação dos pensamentos de Deus – não havia ligações materiais ou evolutivas entre um fóssil e outro, relacionavam-se apenas através da Mente Divina, que criava miraculosamente cada nova espécie", escrevem Desmond e Moore.

Darwin, entre o seu regresso da viagem do Beagle, em 1836 (tinha apenas 22 anos quando ela começou), e o casamento com a prima Emma Wedgwood, em 1839, encheu muitos caderninhos de notas sobre a sua convicção cada vez maior de que as espécies "se transmutavam" – mudavam, ao longo dos tempos, transformando-se noutras, espalhando-se pelo mundo. Em apontamentos telegráficos reflectia sobre os possíveis mecanismos para explicar que as espécies não eram fixas, imutáveis.

Esta ideia da "transmutação" das espécies já andava a germinar na cultura europeia há décadas, embora sem que ninguém tivesse proposto um mecanismo convincente. Mas não era propriamente senso comum, e Darwin manteve-se calado, reflectindo, fazendo experiências – construindo a sua reputação, e sofrendo com o fervilhar de ideias que tinha dentro de si. Porque ele, que acreditava na unidade da espécie humana, apesar de todas as suas variações, tinha uma ideia herética: acreditava na unidade de todas as espécies, que foram evoluindo e transformando-se a partir de um antepassado comum.

Esta crença na unidade da espécie humana era sustentada pela sua vivência familiar, entre as famílias Darwin e Wedgwood, que se casaram várias vezes entre si. Ambas eram activistas na luta pela abolição do comércio de escravos, primeiro, e depois pela abolição da escravatura. Os Wedgwood, fabricantes de louça, criaram um medalhão que se tornou o símbolo dessa luta – um negro de joelhos e com correntes, com a inscrição "Não serei eu um homem e vosso irmão".

Na sua viagem de cinco anos no Beagle, Darwin contactou muitas vezes com escravos, negros e mulatos. Destes últimos duvidava-se que pudessem até ter filhos, como as mulas, que resultam do cruzamento de espécies diferentes, de cavalos e burros. Mas a ele não lhe faziam confusão nenhuma. "Nunca vi ninguém tão inteligente como os negros, especialmente as crianças negras ou mulatas", escreveu depois de chegar à Praia, em Cabo Verde, a primeira paragem da viagem do Beagle, iniciada a 27 Dezembro de 1831.

E também viu muitos índios sul-americanos, representantes das tribos de aparência primitiva com que os europeus da época se confrontaram, muitas vezes em encontros inéditos – foi o momento em que os exploradores europeus começaram a chegar mesmo a todos os cantos da Terra.

O caminho pelo qual chegou à prova de que as espécies podem de facto espalhar-se pelo mundo e mudar, ao longo dessa viagem, acabou por incluir pombos e sementes postas a marinar em água salgada.

Para estas experiências, durante a década de 1850, conseguiu mobilizar a sua enorme rede de correspondentes em todo o mundo, e também o apoio da estrutura consular e comercial do Império Britânico – aquele onde o Sol nunca se chegava a pôr, de tal forma era grande. Mandavam-lhe sementes e peles de ossos de pombo, de variedades locais, para ele estudar. E foi a irritação que as ideias de Agassiz lhe despertavam que o levou a lançar-se nesta aventura, defendem Desmond e Moore.

O que lhe interessava era mostrar que as espécies se modificam – e podem ser modificadas pela acção do homem, que pode simplesmente gostar de pombos com a cauda mais larga ou o bico mais curto, sem que crie espécies novas. E provar que as espécies animais e vegetais podiam viajar pelo mundo, adaptando-se localmente. Para tal, demonstrou que a água salgada não matava as sementes, como toda a gente admitia (sem provas experimentais), e que portanto podiam fazer longas viagens por mar e germinar numa nova terra.

Com estas experiências, Darwin demonstrou os mecanismos da transmutação das espécies – a evolução através da selecção natural. E também de um outro factor, o da selecção sexual: as fêmeas preferem certas características nos machos, que podem não ter valor evolutivo, mas são passadas à geração seguinte. O mesmo mecanismo pode explicar que existam homens negros e brancos, se cada cor preferir ter como parceiro sexual alguém com a mesma tonalidade de pele.

Da origem e dispersão das espécies Darwin colheu uma farpa que apontou ao coração do racismo, que ganhava expressão durante a década de 1850, nos Estados Unidos mas não só. Só que, em 1858, Darwin tinha pressa de publicar – por causa da carta que recebeu de Alfred Russel Wallace, um jovem naturalista que estava na Indonésia e que lhe enviou as suas reflexões sobre a origem e transformação das espécies que tanto se assemelhavam à sua própria teoria, desenvolvida ao longo de duas décadas. Por isso, acabou por deixar a evolução humana de fora de A Origem das Espécies.

Entendia-se que nessa obra ele colocava a humanidade em pé de igualdade com os outros animais. Mas Darwin sentia que precisava de mais provas, de ser verdadeiramente esmagador, para falar sobre a evolução humana, num momento em que a campanha dos que viam os negros como uma espécie separada era tão forte, e em que a ameaça de guerra nos EUA estava a agigantar-se.

Cartas e outros escritos mostram que Darwin tinha esperança que Charles Lyell, o seu mentor científico, o ajudasse, falando da evolução humana no livro que estava a preparar sobre o tema. Mas Lyell tinha dificuldade em aceitar que o homem branco fosse retirado do pináculo da evolução e até algumas simpatias pelos plantadores do Sul dos EUA (embora não propriamente pela escravatura), e não conseguia dar esse passo.

Só anos mais tarde, em 1871, já depois de ter terminado a guerra nos EUA, Darwin ganhou coragem para publicar o livro em que fala mesmo sobre a evolução humana – A Ascendência do Homem, e Selecção relativamente ao Sexo (não disponível em edição portuguesa). Nele expõe então a sua teoria da selecção sexual, para explicar as diferenças que criam as raças.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Mini-invasão de gaivotas polares na costa portuguesa

Desde o início de Janeiro os amantes da observação de aves têm sido saudados por uma visita rara de gaivotas polares. As espécies avistadas - a gaivota hiperbórea (Larus hyperboreus) e a gaivota polar (Larus glaucoides) – não foram muitas (7 a 8 gaivotas de cada espécie), mas isso bastou para pôr em polvorosa os ornitólogos profissionais e amadores: em cada ano só uma ou duas gaivotas perdidas do bando sobrevoam terras portuguesas.

Ainda não há explicação científica para esta anormal mini-invasão, mas Gonçalo Lobo Elias, um engenheiro electrotécnico apaixonado pela observação de aves, arrisca uma explicação. “A vaga de frio que tem atacado o norte da Europa pode ter obrigado as gaivotas a deslocar-se para sul e as tempestades no mar podem tê-las empurrado para a costa”, supõe.

Até agora, Gonçalo Lobo Elias, que é também um dos coordenadores do site Aves de Portugal (www.avesdeportugal.info), sabe que estas gaivotas vindas da Gronelândia, Islândia e Noruega foram vistas um pouco por toda a costa do país: em Peniche, na linha de Cascais, na zona ribeirinha de Lisboa e no Algarve.

De todos os locais os observadores de aves que estão associados ao site têm enviado fotografias e alertado a presença destas visitantes inesperadas. E também em Espanha estas gaivotas polares foram vistas, o que reforça a ideia de que se trata de um fenómeno anormal. Só de uma terceira espécie, a gaivota – tridáctila (Rissa tridactyla, que só raramente é vista em terra), já foram observadas centenas desde que se instalaram temporais na costa espanhola.

Para quem queira dar uma espreitadela nas praias e arriscar encontrar estas gaivotas, basta observar a coloração das penas. Ao contrário das gaivotas a que estamos habituados (as gaivotas argêntias (Larus michahellis) ou as gaivotas de asa escura (Larus fuscus)), as gaivotas polares são totalmente brancas. E para distinguir as duas espécies o tamanho é a única diferença: as gaivotas – hiperbóreas, para além de totalmente brancas, são também maiores.


Patrícia Silva Alves
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