sábado, 7 de setembro de 2013

"Não me sinto odiado pelos professores"


Pode garantir que o terceiro ano letivo do seu mandato vai arrancar com tranquilidade?
Sim, vamos ter um arranque de ano letivo tranquilo. O primeiro foi dificil porque tomámos posse com a máquina já em andamento, o segundo correu bastante bem, foi dos mais bem preparados, como os diretores de escolas reconheceram, graças ao trabalho de professores, directores e responsáveis do Ministério da Educação e Ciência (MEC). Este ano passa-se o mesmo. Preparámos e estamos a preparar o ano com muito cuidado.

Mas os professores contratados ainda não foram colocados…
Serão colocados no seu essencial na próxima semana para as aulas começarem. E depois ainda haverá colocações de professores para substituições. Este ano houve concurso quadrienal, uma operação complexa que envolve mais de 100 mil professores, correu bem, estão colocados muitos docentes. Agora estamos na fase seguinte de colocação.

Que novidades haverá este ano lectivo?
Introduzimos no ano passado um conjunto de incentivos às escolas que consiste na atribuição de créditos horários, de recursos humanos adicionais para acompanhamento especial aos alunos. Como é evidente as escolas gostam sempre de ter mais recursos à disposição. Estes incentivos são introduzidos com base nos resultados das escolas na avaliação externa, na progressão dos resultados escolares e na comparação entre avaliação externa e interna. Este ano vamos dar 2800 horas, que corresponde a 129 professores, mais quatro do que o ano passado. E o mais importante é que em 2/3 das escolas onde houve alterações significativas, estas foram para melhor.

Quantos agrupamentos são beneficiados?
São 148. E mais de um terço das escolas que obtiveram créditos são novos agrupamentos e um quarto dos novos agrupamentos obtiveram créditos horários. Há que desmistificar algo sobre os chamados mega-agrupamentos. Não são locais onde se empilham crianças, são consórcios entre escolas que partilham recursos. Se uma escola tem um bom laboratório e outra um bom equipamento desportivo, com a fusão os alunos das duas escolas podem beneficiar disso.

No sistema global vai haver redução de professores contratados?
É natural que aconteça, que haja uma redução do número de professores contratados. Estamos numa situação demográfica complicada e as nossas previsões apontam para que nos próximos cinco anos haja 40 mil alunos a menos no sistema, mesmo com o aumento da escolaridade obrigatória, e isso significa um decréscimo de necessidades. O contribuinte português não compreenderia que fizéssemos mais contratações do que as estritamente necessárias para que o sistema funcione bem.

Mas a redução verificada no número de professores nestes dois anos do seu mandato foi muito superior ao que essa redução de alunos justificaria. Admite que tomou medidas que conduziram a esse desfecho devido às restrições financeiras?
Tomámos uma série de medidas necessárias para melhor controlo do sistema. Hoje temos um sistema que controla de forma mais apertada os horários que são criados, as necessidades reais das escolas. Este aspeto de racionalização do sistema é fundamental. A redução de contratações deriva de haver menos alunos nas escolas. Mas além disso, nós temos feito um trabalho mais rigoroso de verificação das necessidades reais, e o contribuinte português não compreenderia que fizéssemos de outra forma. Faremos as contratações necessárias ao bom funcionamento das escolas e só essas.

Medidas como a revisão curricular também contribuíram?
Por vezes diz-se que foi a revisão da estrutura curricular que fez diminuir as contratações de docentes mas, por exemplo, temos grupos de recrutamento como de português em que reforçámos o número de horas e neste momento há uma série de horários zero a português.

No caso dos mega-agrupamentos, os agentes educativos são praticamente unânimes em dizer que são pedagogicamente desaconselháveis. Vai fazer algum estudo para verificar isso?
Estes agrupamentos começaram há pouco tempo. Não temos indicações nenhumas de que os resultados pioraram, pelo contrário, o exemplo que indiquei há pouco aponta para uma melhoria de resultados. Em educação todas as mudanças são dramatizadas. É o caso das provas finais do 4.º ano introduzidas este ano. Dizia-se que as crianças iam ter problemas psicológicos, que os resultados iam piorar, que a retenção ia aumentar. Dramatizou-se muito e depois tivemos provas que decorreram com normalidade, jovens descontraídos a fazer as provas, estavam mais preocupados os críticos, e depois ainda tivemos a menor taxa de retenção no 4.º ano desde 2000. É preciso que passem, mas sabendo. Fixámos metas claras, e todos se empenharam.

Mas este ano houve também um descalabro nos resultados dos exames do básico e secundário. O que vai fazer?
É verdade que os resultados não nos satisfazem e temos que encarar o problema de frente. O nosso ensino necessita ainda de mais trabalho, de uma organização mais clara, de mais incentivos aos alunos, isso é óbvio. Estes exames mostraram este ano, tal como no passado e há dois anos, que a escola precisa de trabalhar mais.

Mas acusam-no de ter tirado recursos às escolas e que isso teve impacto nos resultados dos alunos…
Não teve impacto. O que tem impacto numa organização é a maneira como funciona, as metas claras que tem e a liderança. Estes são os aspectos em que estamos a trabalhar para que as coisas melhorem. Estamos a começar pelas bases, pelo 4.º e 6.º ano. Os jovens com dificuldades no 1.º ciclo muito dificilmente as superam nos ciclos seguintes. Por isso damos atenção muito grande ao 1º ciclo, e criámos metas e temos apoios especiais previstos.

Mas acusam-no de ter retirado meios para apoio a alunos com dificuldade, em especial nos 2.º e 3.º ciclo.
Estamos a dar recursos necessários e com objectivos claros para acompanhamento dos alunos e melhoria dos resultados. Muitas vezes neste país pensa-se que pondo mais dinheiro em cima do assunto ele fica resolvido. Querem que se contrate indiscriminadamente mais pessoas, que se dêem mais subsídios, quando o problema da Educação em Portugal é sobretudo de direcção, organização e empenho.

Admite que na educação pode haver cortes que permitem poupar no imediato mas saem mais caro no futuro?
Toda a gestão de recursos é feita tendo em conta as limitações do país, é óbvio, mas concentrando os recursos onde é necessário para melhoria do sistema.

Explique como se desenvolve esse processo. Deparou-se com um orçamento mais baixo e teve de tomar medidas de acordo com isso?
Quando chegámos, havia cursos nocturnos para adultos com turmas cuja dimensão era metade das de dia. Ao deslocar os recursos da noite para o dia, pusemos mais recursos nas escolas e fizemos poupança. Todo o nosso trabalho tem sido olhar para o que é essencial e deslocar recursos estritamente necessários.

Mas sempre com as medidas a serem mais ditadas por restrições financeiras do que por questões pedagógicas…
Com a preocupação de organização, mas ao mesmo tempo percebendo a situação difícil em que o país está. Mas esta situação difícil do país não significa que vamos cortar no essencial. Vamos sim racionalizar os recursos e organizar melhor para ter melhores resultados. É o que digo desde o início, é possível em educação como noutras áreas fazer mais com menos. Aumentámos apoios às escolas mas fizemos poupança noutras áreas. Mas a situação do país obriga a ter sempre em mente as limitações financeiras. Nem o povo português perceberia que fosse de outra maneira.

Mas muitas pessoas defendem que a educação devia ter sido ser poupada aos cortes devido ao atraso que temos em relação aos parceiros da UE e que estava a ser recuperado nos últimos anos…
E continuamos a recuperar. Nós estamos a poupar a educação, porque estamos a utilizar os recursos necessários. É evidente que há aspectos em que tivemos de fazer poupanças. Por exemplo, desperdiçou-se tanto dinheiro na construção de equipamentos escolares que não eram necessários que agora temos de ter muito cuidado. A construção e reabilitação de equipamentos está agora muito condicionada pela dívida da Parque Escolar, que não pode aumentar. É evidente que gostaria de ter mais dinheiro para requalificar mais depressa um conjunto de escolas, mas garanto que não iria fazer luxos. Mas reconheço que o nosso equipamento escolar precisa de algum investimento.

O CM noticiou há dias que há 21 escolas cujas obras foram interrompidas e os alunos têm aulas em monoblocos que já custaram 11 milhões em alugueres…
E ao mesmo tempo houve escolas que se requalificaram com 18 e 20 milhões de euros cada uma. Mas admito que é preciso manter os alunos em instalações adequadas.

O arranque do ano fica também marcado pelas restrições impostas à abertura de turmas, em especial com número de alunos reduzido. Já está tudo resolvido e a rede escolar definida?
Posso dar-lhe estes dados interessantes. No 2.º e 3.º ciclo, 66 por cento das turmas têm até 25 alunos, ou seja, só 34 por cento tem o número mínimo de 26. Temos um problema de assimetria regional e uma série de locais com poucos alunos, mas não faz sentido que se abram constantemente turmas com 5, 10 ou 14 alunos. Há um mínimo para que a turma tenha diversidade e confronto de perspectivas.

E também por motivos financeiros…
E por motivos financeiros também. Por isso este ano demos atenção maior às turmas muito pequenas que surgem por vários lados e fomos verificar se tinham razão de ser. Em alguns casos eram inevitáveis. Se for uma povoação sem mais alunos e com a escola mais próxima a 70 quilómetros é evidente que temos de autorizar mesmo turmas pequenas, mas em muitos casos é a solução mais fácil mas não a mais correta pedagogicamente. Mesmo assim, a média de alunos por turma no 2.º e 3.º ciclo é de 22,9, relativamente baixa, e só 10 por cento das turmas está acima de 28.

Mas foi feito muito em cima do arranque do ano lectivo. E passou a haver mais turmas com alunos de vários níveis de ensino.
O problema é que só sabemos quantos alunos estão nas turmas depois das matrículas, não quisemos funcionar com base em estimativas. Foi preciso verificar os registos dos alunos e esse trabalho de pormenor foi feito nas últimas semanas pelos serviços do MEC.

Os diretores falaram num mês de atraso na definição da rede. Esta tudo já pronto?
Está praticamente tudo feito. Neste momento estamos a ver se é possível realocar os professores do quadro com horário zero, de modo a que sejam contratados os professores que colmatem as necessidades temporárias e que o ano letivo arranque.

As restrições à abertura de turmas atingiu muito os cursos profissionais. Foi acusado por dirigentes das escolas profissionais privadas de apregoar o objectivo de ter 50% de alunos do secundário em vias profissionalizantes mas tomar medidas em sentido oposto.
Eu respondo assim, de há dois anos a esta parte, diminuímos o número de turmas e aumentámos o número de alunos e este ano estamos a trabalhar para o mesmo. Cada turma custa ao Estado cerca de 80 mil euros por ano. Se existem duas turmas com 10 alunos, porque não se juntam numa com 20? É disto que estamos a falar, de poupar recursos e ter uma oferta superior. Estamos a caminhar para os 50 por cento mas não vai ser neste ano nem no próximo. O ano passado foram aprovadas 1837 turmas com capacidade para 35 mil alunos. Até este momento temos aprovadas 1764 turmas com 42 mil alunos. Um aumento de 7 mil alunos com menos turmas. Mas ainda estamos em diálogo.

Os directores de escolas públicas também se queixaram de ter menos turmas em vias profissionalizantes…
Tenho um grande apreço pelo trabalho dos directores e professores em geral, mas é natural que tentem garantir uma situação de algum conforto, para fazer face a algum imprevisto, e que nós, defendendo o sistema no seu conjunto, tenhamos de introduzir o maior rigor possível. Mas o diálogo com os senhores diretores tem funcionado muito bem na resolução desse problema.

O Orçamento de 2014 vai ter um corte acima de 200 milhões na Educação, como já foi noticiado?
Não quero falar nisso porque o Orçamento ainda não foi apresentado na Assembleia da República e é possível que haja alguns reajustes que tenham de ser feitos, em função da última decisão do Tribunal Constitucional (TC).

O chumbo do TC ao sistema de requalificação terá impacto no orçamento do MEC?
Tem um impacto reduzido no Orçamento do MEC. Já tínhamos acordado com os sindicatos de professores, até antes da greve, que no ano civil de 2014 o impacto da requalificação seria zero. Portanto não tínhamos previsto para 2014 o impacto da requalificação. No que se refere a assistentes operacionais e técnicos, estamos a trabalhar para os redistribuir por outras escolas.

Na negociação do sistema de requalificação enfrentou o maior teste do seu mandato, com 50 mil professores na rua e greves aos exames e avaliações?
Não sei se foram 50 mil professores na rua… Era uma medida muito polémica que esteve no centro das preocupações dos professores, mas mais uma vez houve um alarmismo descabido.

O medo do desemprego é alarmismo?
O que ficou acordado no final da greve foi o que à partida o MEC tinha declarado que ia fazer.

Não admite que teve de fazer cedências devido à pressão exercida e até ao risco de este ano letivo não arrancar?
Numa negociação há sempre cedências de parte a parte, mas no essencial, o acordo feito com os sindicatos cristaliza as posições que o MEC disse semanas antes que estava disposto a aceitar. Houve apenas uma adenda que foram as horas para a direcção de turma.

E a não atribuição de serviço aos 6 mil professores que que esperavam reforma?
Isso já tínhamos proposto. Tinhamos discutido isso com as Finanças e não fazia sentido que esses professores fossem colocados.

Voltando à questão da contestação que marcou o Verão, pergunto-lhe se sentiu pela primeira vez que era odiado pelos professores?
Eu não me sinto odiado pelos professores. Sinto que os professores estão preocupados. Tenho mantido diálogo com muitos, não só dos sindicatos mas também de escolas que visito, diretores com quem falo, professores que me abordam nas ruas e não sinto essa hostilidade.

Anda na rua tranquilo?
Sim e por vezes sou interpelado por professores, para me fazerem perguntas, darem sugestões, uma vez ou outra para fazerem uma ou outra crítica, e também para me darem informações sobre o que se passa nas escolas, ouvir a minha opinião e darem a deles. A maioria das vezes que sou interpelado na rua por professores é uma interpelação positiva.

Mas é responsável por cerca de 20 mil professores terem deixado de ser contratados. Tem a consciência tranquila, sente que cumpriu apenas o seu dever?
Não faço essas contas. As contas que faço é: o que é que a escola precisa para melhorar? O que é que a escola precisa como recursos? Essa é que é a exigência do país. Não é que o MEC esteja preocupado com outra coisa que não seja o futuro dos alunos, a educação dos alunos. E a exigência do país é também que se faça uma utilização racional dos recursos.

Mas quando olha para a situação de professores contratados 10, 20 anos, a receber mil euros, com a casa às costas, sempre em risco de perder o emprego…
É uma situação humana preocupante. E a situação que se vive no nosso país é grave, gravíssima e obriga a sacrifícios de muitos portugueses. É algo que me preocupa e entristece e não gostaria que o nosso país estivesse a passar por isto.

Que mudanças está a preparar no sistema de ensino?
Queremos uma maior autonomia pedagógica das escolas e o diploma do novo Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo vai dar às escolas com contrato de autonomia e associação, autonomia para escolher currículos de forma mais livre e responsável. Será para entrar em vigor no ano lectivo 2014/2015. Temos de fazer muito mais pela autonomia das escolas. Temos este sistema centralizado de contratação de professores…

Um sistema soviético, como lhe chamou recentemente…
Sim, um sistema soviético que eu gostaria muito de mudar. É o sistema legal que existe, com o qual tenho de trabalhar mas que gostaria de mudar. Se as escolas tiverem capacidade de contratação terão mais autonomia, mas muito mais pode ser feito do que foi feito até agora no sentido da autonomia e redução da burocracia do Ministério, gostaria muito de trabalhar para isso. A maior autonomia pedagógica é um passo nesse sentido.

Voltando aos professores contratados, qual o objectivo da introdução de uma prova de avaliação?
Não houve acordo com os sindicatos o que me entristeceu, porque vejo esta prova como uma valorização da profissão docente. A prova vai começar este ano lectivo e tenho esperança que vá mudar muito a formação de professores nos próximos anos. Vai dar um sinal de exigência à formação de professores, vai obrigar as escolas de formação de professores a repensarem alguns aspectos.

Faz sentido professores que dão aulas há 15 anos serem submetidos a essa prova?
A prova será feita por todos e os professores não devem ter medo da prova porque na sua maioria são profissionais competentes e dedicados. Exceptuando casos que espero que não existam de deficiências gravíssimas na gramática, aritmética e de cultura geral, a prova destina-se a que sejam aprovados os que têm capacidade. E em paralelo com esta prova, estamos a trabalhar na revisão das habilitações para docência. O decreto-lei das habilitações para a docência está a ser revisto e espero brevemente levar uma proposta a Conselho de Ministros, para que seja introduzida maior exigência no conjunto de conhecimentos que os professores de cada área específica têm que ter. Os professores são um fator essencial para o sucesso do ensino e quanto melhor forem melhor será o nosso ensino. São medidas com custos pequenos e com efeito muito positivo no futuro da educação em Portugal.

Podem ser também introduzidas provas para professores do quadro?
Não, os professores de carreira têm o seu lugar e não vai haver provas para eles. Mas para os que não pertencem ao quadro haverá provas para todos eles.

Mudou muita coisa na área das aprendizagens, com novos currículos, criação de metas, novos exames. Como responde a quem o acusou de ter uma agenda ideológica e de querer o regresso da escola de Salazar do ler, escrever e contar?
Há pessoas que não têm vergonha na cara e dizem a primeira coisa que lhes apetece mesmo sendo uma mentira e um insulto. Pode escrever assim mesmo.

Tenho ideia que estas mudanças nas áreas das aprendizagens são muito da sua lavra…
Confirmo que sim.

Não há o risco de o PS vir a desfazer estas medidas e por exemplo acabar com os exames que introduziu nos 4.º e 6.º anos. Estas mudanças feitas consoante a cor partidária deve ser a crítica mais vezes feita ao poder político por parte dos agentes educativos, como sabe. Por que cedeu à tentação?
As alterações aos programas são mínimas, só mudei o programa de matemática do básico e destinou-se a remover do programa orientações ideológicas que não devem estar no programa e cabem aos professores. Nas metas só olhámos para os programas e fizemos um esqueleto do mais importante para dar um instrumento que ajude professores, pais e alunos. Quanto aos exames do 4.º e 6.º ano, não foi uma alteração radical, foi introduzir um elemento de avaliação adicional ao sistema tal como ele está. O PS foi de facto um pouco crítico dessa introdução, tal como o foi na introdução de exames no 9º ano pelo ministro David Justino. A verdade é que quando o PS chegou ao poder manteve os exames do 9.º anos. E estou convencido que, por fora desta batalha política atual, o PS vai reconhecer e reconhece que é necessária uma avaliação mais frequente do sistema. É bom que os alunos comecem desde cedo a ter provas e estou convencido que o PS vai manter estas provas.

Manteve o número de turmas nas escolas privadas com contratos de associação embora tenha reduzido o montante pago por turma. Acusam-no de ter agenda ideológica para desvalorizar a escola pública e valorizar os privados. Como reage?
Escolas privadas com contrato de associação têm feito oferta complementar à pública numa série de locais, por razões históricas, em muitos sítios com qualidade e não queremos alterar isso. É direito dos privados. Ao pai e ao aluno não interessa se a escola é privada ou pública mas a qualidade do ensino. Não desejamos de forma alguma terminar esta relação. Mas teve de haver contenção nas verbas pagas.

Que mudanças vai fazer no Estatuto?
Vamos alterar para haver mais liberdade de escolha dos pais para terem uma opção mais vasta e vamos mudar pouco a pouco, num prazo de anos, as nossas relações com escolas privadas para que não seja o Estado a determinar o número de turmas do colégio financiado pelo público mas que isso seja determinado por pais e alunos.

O programa de Governo prevê que haja oferta pública de ensino ministrada tanto por escolas públicas como privadas, com o privado a ganhar mais espaço. Vai implementar isto até ao fim da legislatura?
A escola pública só tem a lucrar com a concorrência saudável com o privado. O sistema de ensino tem a lucrar com isso.

O objetivo é então alargar o papel atribuído a essas escolas privadas?
Essas escolas decidirão o que querem fazer. Acusação de ter agenda ideológica é infundada. Nós dirigimos essencialmente a escola pública e queremos que ela melhore e que progrida sempre, que seja o melhor possível, mas não vemos que a existência de uma oferta privada boa seja prejudicial à escola pública, vemos isso como um incentivo.

Disse que vai mudar a lei nas escolas com contrato de associação e alargar a liberdade de escolha, mas pode concretizar melhor?
O importante é que sejam cada vez mais os pais a escolher a escola dos filhos e seja cada vez menos o Estado centralmente a decidir quantas turmas em cada escola. Isto vai entrar em vigor num futuro muito próximo mas será feito progressivamente.

Essa opção dos pais será entre públicas e privadas ou só entre públicas?
Progressivamente, num horizonte temporal mais largo, é bom que exista opção entre escola pública e escola privada e que seja feita com toda a tranquilidade.

Acredita que neste mandato poderá implementar esse sistema?
Acredito que em alguns casos isso exista. Aliás, temos neste momento algumas localidades onde os pais já podem escolher entre escola com contrato de associação e pública porque estão perto. Não nos compete a nós dizer quantas turmas tem cada uma dessas escolas mas compete aos pais decidir onde querem pôr os seus filhos. Estou a falar sempre de algo programático e não para implementar amanhã.

Concorda com o cheque-ensino?
Não falaria de um cheque mas de um processo qualquer de maior liberdade de escolha para as famílias.

É uma mudança radical de paradigma…
Não pode ser feita de um dia para o outro, tem de ser feita de forma experimental, tem de se ir vendo quais as zonas onde isso faz sentido e ao mesmo tempo compete ao Estado manter um controlo sobre a qualidade da oferta.

Isso implicaria o fim do sistema central de colocações de professores?
Seria bom que houvesse um sistema mais descentralizado.

Curiosamente até foi acusado de aumentar a centralização quando acabou com as direções regionais de educação?
O objectivo é que tendo as escolas mais autonomia, as delegações regionais do ministério tenham um papel cada vez mais apagado. Há ainda muito trabalho a fazer nesse sentido.

Há muitas denúncias de abusos nas escolas privadas. Houve já um inquérito ao grupo GPS com resultados escassos. O MEC está atento a isto? 
Perante denúncias de situações menos regulares nas escolas privadas e públicos temos sempre de agir.

Na demissão de Miguel Relvas o MEC atuou sob pressão dos media para revelar os resultados do inquérito?
A IGEC atua com os seus prazos próprios e a sua independência e não cabe ao ministro pressioná-la para agir mais depressa ou mais devagar. As coisas foram tratadas com calma e ponderação nos dois casos que referiu para que se faça justiça.

Foi uma situação difícil por estar em causa um colega de Governo?
Não pensei se era difícil ou fácil, estava em causa um conjunto de licenciaturas que pareciam irregulares e atuámos.

O Governo viveu crise profunda no Verão, agora há condições pra ir até ao fim da legislatura?
Acho que sim, vejo o Governo tranquilo, o primeiro-ministro tranquilo, vejo um bom ambiente no conselho de ministros e um grande sentido de responsabilidade perante a situação do país e a necessidade de estabilidade que permita levar a bom termo este programa.

A Agenda Europeia 2020, de ter 40 por cento de diplomados na população jovem está comprometida no caso de Portugal?
Estamos a trabalhar para isso, mas é uma agenda muito difícil de alcançar. Mas mais importante que cumprir as estatísticas estamos interessados na qualificação real dos portugueses. E há um instrumento muito importante que vamos introduzir, os cursos superiores especializados, que dão nível 5 de qualificação. São cursos superiores ao contrário dos atuais Cursos de Especialização tecnológica, que são cursos pós-secundário, e vão permitir que muitos jovens possam aceder a funções técnicas especializadas de grau intermédio de que o nosso país precisa imenso. Os politécnicos terão papel fundamental em colaboração com o ensino profissional e empresas nas regiões.

Como vê a redução que se tem verificado nas candidaturas ao ensino superior. É preocupante?
Tem havido uma ligeira redução e se a tendência se mantiver é preocupante. Temos de fazer com que mais jovens tenham cursos superiores. A introdução dos cursos superiores especializados são uma maneira de o fazer. E estamos a atuar para que os jovens tenham sucesso no ensino secundário e prossigam estudos superiores.

O reitor Cruz Serra criticou recentemente no CM o alcance reduzido do reordenamento da rede de ensino superior…
Estamos só a começar.

Vai haver uma redução dos orçamentos para o ensino superior?
Os orçamentos para o ensino superior, em termos nominais, subiram, mas como subiram também os encargos com a caixa geral de aposentações há uma ligeira redução em termos operacionais. Isso já foi discutido com universidades e politécnicos e neste momento estamos todos a trabalhar para funcionar com base neste orçamento que existe e que foi aceite pelas universidade e politécnicos.

A sua vida pessoal mudou muito nestes dois anos?
A minha vida privada mudou muito, é muito diferente, tenho menos tempo para a família. Trabalho muitas horas por dia e preocupo-me muito também. A exposição pública muda muito a vida das pessoas mas procuro não pensar nisso e ir aos mesmos sítios. Passeio tranquilamente pelas ruas sozinho em muitos sítios e sem segurança.

Notícia retirada do Correio da Manhã

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