terça-feira, 11 de setembro de 2012

Andreia já lê mensagens no telemóvel e Aurora já distingue os detergentes


Fizeram alfabetização, passaram pelas Novas Oportunidades. Uma ainda está a estudar, a outra já está a trabalhar. 

A troca de mensagens de telemóvel pode ser frenética na adolescência. Aos 16 anos, Andreia Pereira observava a excitação das amigas, mas não sabia escrever nem ler. Também queria receber e enviar SMS. Regressou à escola. Entusiasmou-se tanto que, aos 21, está a fazer um curso de aprendizagem que equivale ao 12.º ano. Já lê livros. Esta semana, na bolsa, carrega Mar me quer, de Mia Couto. Não percebe tudo. Tentou ler Ética Para um Jovem, de Fernando Savater, e parou. Não diz que não consegue, diz que ainda não consegue.

Os baixos níveis de literacia e o analfabetismo não são um exclusivo dos países em desenvolvimento. A antecipar o Dia Internacional da Literacia, que hoje se assinala, foi divulgado um relatório do grupo de peritos instituído pela Comissão Europeia: quase 75 milhões de adultos europeus "não adquiriram as competências básicas de leitura e de escrita, o que dificulta a obtenção de emprego e acentua o risco de pobreza e de exclusão social".

O relatório, anteontem apresentado em Nicósia, numa conferência organizada pela presidência cipriota da União Europeia, fornece exemplos de projectos bem-sucedidos no domínio da literacia, quatro deles de Portugal: o Plano Nacional de Leitura, o Cata-Livros (projecto Fundação Gulbenkian/Casa da Leitura), a organização não governamental Empresários pela Inclusão Social e o Programa Novas Oportunidades (este último terminado por decisão do actual Governo que, em seu lugar, promete criar centros para a qualificação e o ensino profissional).

Andreia estava antes de tudo isso. Passou por uma turma de alfabetização promovida pelo agrupamento vertical Pires de Lima, com o apoio da associação de solidariedade social Qualificar para Incluir (QPI), que no Porto alia educação e trabalho social. Depois entrou nas Novas Oportunidades. Fez o equiparado a 5.º e 6.º anos. Fez o equivalente a 7.º, 8.º e 9.º anos. Agora está a fazer um curso de hotelaria, mesa e bar que lhe valerá pelo 12.º ano.

A mãe está orgulhosa. Na infância, a miúda só se aguentou até ao 3.º ano. Faltava. Maltratava colegas. Divertia-se a esgotar a paciência de professores. Aos 12 anos deixou de aparecer. "Algumas amigas não iam. Queria ser igual a elas." Não se lembra de qualquer tentativa de contrariar a sua desistência. "Queriam lá saber. Achavam que não valorizávamos a escola e pronto." O pai, que fazia biscates, morrera. A mãe, empregada de limpeza, criava os cinco filhos num bairro marcado pelo tráfico e consumo de drogas. Só quando mudou de bairro Andreia sentiu falta das letras. "Percebi que era importante saber ler, escrever, falar bem português." E aprendeu isso. E sobretudo aprendeu "a ter respeito" por ela e e pelos outros.

Há quem comece ainda mais tarde. Aurora Ribeiro está com 43 anos e ainda se lembra do seu primeiro dia de aulas, há quatro. "Quando era pequenina queria era correr atrás do eléctrico." Casou-se ainda adolescente, com um pescador. Criava os oito filhos com o dinheiro que ele ganhava no mar e com o que ela ganhava a vender o peixe que ele trazia. Nem dizia que não sabia escrever ou ler. "Era uma vergonha. Dizia que não estava a ver bem."

O analfabetismo limitava-a. "Nem sabia apanhar o autocarro." Tinha de perguntar ao motorista: "Para onde vai?" As contas eram outra dor de cabeça. Ia descansada à mercearia, perto de casa. "Tinha confiança." Fora dali, tinha de pedir a alguém que a acompanhasse. "E, chegava uma carta a casa, tinha de esperar que os meus filhos viessem para [a] ler." Agora lê, embora nem sempre perceba quem lhe escreve na Segurança Social, na câmara municipal ou no centro de saúde. "Há frases complicadas. Tenho de perguntar."

Tudo mudou quando ficou viúva e, numa aflição, requereu rendimento social de inserção. A QPI, que gere o seu processo, propôs-lhe logo alfabetização. Quando não se sabe ler nem escrever, até escolher os detergentes é tramado. "Ó doutora, tenho vergonha! Vão gozar comigo." 

A técnica sossegou-a. Os outros também estavam a aprender. Fez a alfabetização. Passou pelas Novas Oportunidades. Saiu com o equivalente ao 6.º ano e está a trabalhar. Integra uma empresa de inserção criada pela QPI para responder a mulheres com pouca empregabilidade. Faz limpezas numa residencial. "Antes quero trabalhar que receber RSI." Antigamente andava deprimida. Agora, risos.

Quantos estarão à espera de oportunidade semelhante? Só ali, na QPI, há 50 pessoas a aguardar que abra uma turma de alfabetização de adultos. "Essas turmas só podem ser abertas pela escola pública", diz Elisa Rodrigues, da associação. "Temos uma disponível para trabalhar connosco. Apresentámos a candidatura à Direcção Regional de Educação do Norte, disseram-nos que tinha de ser a escola a pedir. Aquela diz que pediu e que está à espera." Muito do que é a educação de adultos está à espera da reforma que se anuncia.

Texto: Ana Cristina Pereira

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