domingo, 3 de junho de 2012

Falar é fácil

Desde o início do ano que eu reparava no comportamento daquele meu aluno.

Era um rapazinho tímido, de cerca de 12 anos, frequentando com sucesso o 6º ano. Nunca se atrasava, exemplarmente cumpridor, mas no intervalo ficava muitas vezes isolado e afastado dos colegas. Várias vezes o tinha incentivado a participar com a turma nos jogos e brincadeiras. Embora lhe fosse difícil, percebia-se isso, um dia disse-me, à entrada da aula, “professor, hoje estive a jogar futebol com os outros”. Era um triunfo e quis partilhá-lo comigo, como se eu fosse cúmplice da sua vitória.

Mas na altura em que se aproximavam testes ele ficava ainda mais pálido e olheirento. Nessas alturas isolava-se ainda mais, deixava de sorrir, os olhos à beira das lágrimas, um silêncio a custo quebrado, um rosto que mostrava sofrimento.

Todos os professores, inquietos, tinham já falado do Francisco. Quando ao director de turma falou com os pais, compreendeu que a mesma ansiedade devia estar presente naqueles pais que, eles também, ficavam ansiosos quando da prestação de provas do filho. Mas, mais ainda, o próprio Francisco sofria por si e pelos pais. Apesar dos bons resultados que ia conseguindo, cada nova prova era um sofrimento atroz, nunca acreditava que ia ser capaz, e cada teste era um espasmo de dor e sofrimento. Tinha sido sempre assim desde pequeno, diziam os pais, até já o tinham levado ao psicólogo, mas não tinha mudado muito.

Os colegas gozavam o Francisco: desde chamar-lhe mariquinhas, betinho até inventarem súbitas informações sobre teste inexistentes que o professor de matemática ou português ia dar em breve.

Ciclicamente, quando havia testes, eu via o Francisco pálido, fechado em si, recuando para os cantos no recreio, a deixar-se ficar encostado e escondido junto a um pilar ou a uma árvore, de lágrimas nos olhos e tremendo.

No inverno, quando chovia e não se podia ir lá para fora, a tristeza do Francisco era mais visível. Percorrendo os corredores, ou o polivalente, arrastando atrás de si a mochila com rodinhas, de cabeço baixa, olhos em que podíamos imaginar as lágrimas, ombros caídos e um pouco curvado, ele era a imagem da própria desolação. Então nós, professores e funcionários, já sabíamos que o Francisco estava em vésperas de ter um teste. Depois a um seguiam-se outros e o Francisco nem tinha tempo para se “desangustiar”. Por fim quando os testes terminavam tinha alguns dias de alívio e alegria. Mas durava pouco pois, mal sabia de outro teste, logo ele se desesperava de novo.

Um dia falei com ele sobre a sua grande preocupação. Disse-lhe que não fazia sentido tanta desassossego pois ele era bom aluno, nunca tinha maus resultados, tinha que ter mais confiança em si, pensar que, mesmo se alguma coisa corresse mal, ele poderia sempre melhorar a seguir pois era inteligente e capaz; disse-lhe como tinha que estar mais à vontade, menos triste, que era só pensar que tudo iria correr bem.

Escutou-me atento e simpático mas os seus olhos continuavam aflitos e incrédulos.

Disse-lhe:

- Estás-me a ouvir e a pensar que falar é fácil, não é Francisco?

Então com um grande suspiro e um enorme sorriso de alívio o Francisco respondeu:

- É, professor, falar é fácil!...

Sorri-lhe. Não dissemos mais nada. A comunicação mais profunda tinha sido estabelecida.



Página da Educação
N.º 187, série II
Inverno 2009

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