domingo, 13 de maio de 2012

O ensino da matemática nos países asiáticos

Muitos analistas apresentam os países asiáticos como exemplo a seguir no que diz respeito ao ensino da Matemática, apontando os sistemas educativos do Japão, da Coreia do Sul ou de Singapura como sistemas merecedores de particular atenção.

Muitos dizem que, apesar de ser comum encontrar turmas de 40-60 alunos, os países asiáticos obtêm melhores resultados nos estudos internacionais comparativos, pelo que devemos usar os seus métodos. Os estudantes asiáticos, quando emigrados noutros países obtêm invariavelmente melhores resultados do que os seus colegas dos países de acolhimento, o que reforça esta recomendação. Os manuais escolares de Singapura são já adoptados em vários distritos escolares dos Estados Unidos.

Contudo, devemos ter muito cuidado com a cópia de modelos estranhos à nossa sociedade e culturas. Com efeito, o funcionamento da escola depende muito da influência da sociedade em que está imersa. Um especialista, Frederick Leung, professor na Universidade de Hong Kong, adverte para factores sociais que empurram o desempenho dos alunos dos países da Ásia Oriental. Ele afirma que há quatro factores muito importantes:

- uma ênfase importante na importância social da educação e as grandes expectativas que as famílias têm relativamente aos resultados dos estudantes

- uma cultura onde os exames são importantes

- o papel da prática e da memorização na aprendizagem

- a filosofia pragmática dos países sob influência da tradição de Confúcio.

Por exemplo, foi na China que foram criados os primeiros exames de admissão a uma profissão (no ano 605) e assim foram criando prestígio por darem acesso a uma profissão respeitada e importante (funcionários do estado). Toda a cultura oriental está impregnada da importância de se ser bem sucedido nos exames.

Surpreendentemente os estudantes asiáticos não gostam de Matemática e não têm muita confiança nas suas próprias capacidades. Esta situação resulta, em grande parte, da necessidade de os estudantes frequentarem aulas suplementares para se prepararem bem para os exames; na Coreia do Sul mais de 90% dos estudantes do ensino primário frequentam aulas à noite para conseguirem ser bem sucedidos nos exames que lhes permitam aceder às melhores escolas secundárias e mais tarde às melhores universidades dos pais.

Que conclusões tirar de tudo isto?

Que a cópia acrítica de um modelo educacional de um pais para outro estará condenado ao fracasso pois o seu sucesso depende da cultura onde está imerso. E essa cultura é muito mais complexa do que possa parecer à primeira vista. Por exemplo, se é verdade que existe nos países asiáticos uma ênfase na prática e na repetição, também é verdade que existe uma preocupação de fornecer ao aluno ferramentas que o tornem autónomo na perspectiva confuciana: “Se deres um peixe a um homem ele tem alimento para um dia, mas se o ensinares a pescar ele tem alimento para a vida inteira.” Em consequência os alunos orientais são chamados a participar na aula muito mais do que os alunos ocidentais, para que percebam e consigam fazer por si o que está ser estudado na aula.

Todos temos a aprender com as experiências de outros países: muitos países tentam implementar Planos para a Matemática (como a Coreia do Sul e a Formosa) onde, tal como em Portugal, a ênfase é colocada na formação de professores e na criação de espaços suplementares para o estudo da Matemática dentro e fora da escola. É sempre interessante comparar os resultados e tentar perceber bem o que se terá passado e o que se poderá conseguir melhorar. Mas nunca deveremos importar sistemas “prontos a usar” sejam eles manuais escolares, programas escolares ou de formação de professores, ou sistemas de exames.
N.º 187, série I Inverno 2009

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