sábado, 14 de abril de 2012

Saber aprender ...


Para os meus filhos britânicos, Camila e Feliz, que em breve terão uma menina em casa, e que sabem aprender ao estar sós, à espera do aparecimento, a minha inspiração. Uma Elisa, como a de Beethoven...

São dois verbos aparentemente contraditórios. O primeiro, parece indicar a actividade de conhecer o que se faz; o segundo, a de colocar na mente de uma pessoa ideias novas. Parecem contraditórios e, no entanto, são actividades que precisam de andar juntas. O aprender está normalmente associado a educação. No entanto, no meu entender, é um acto contínuo ao longo da vida. Pelo que podemos dizer que o conceito está associado a ir adquirindo conhecimento ao longo da vida.

Adquirir conhecimento – este também associado às primeiras ideias que nos aparecem. Primeiras ideias que se pensam ser do ABC, ou abecedário. Mais uma vez, a Escola. Mas será a Escola o sítio adequado da aprendizagem? Não será antes necessário distinguir entre as pessoas que andam perto de nós e de quem dependemos? Parece-me impossível pensar que seja o abecedário essa primeira aprendizagem. Onde ficam as emoções, os rituais, o acarinhamento, a dependência de que os mais novos, em primeiro lugar, precisam, para desenvolver essa arte de amar no decorrer da vida? Ou a aprendizagem para acabar os graus básicos, o secundário e, eventualmente, a vida académica? Não será necessário desenvolver no ser humano princípios de emotividade, ética e estética, antes de aprender a ler essas necessárias primeiras palavras?

Como a escultura de Michelangelo Buonarroti, ou Buonarotus, esculpida no século XV, por ordem de um cardeal, para a antiga Basílica de Roma. Quem vê a escultura em desenho ou em imagem fica trespassado de ver uma mãe sofrer a morte de um filho. As lágrimas correm pela cara, sem um soluço – resignação de uma mulher que sabe que um dia o seu filho deve desaparecer.

[A estátua, esculpida em mármore de Carrara, está colocada na primeira capela da coxia da direita, na Basílica de São Pedro, e mede 195 centímetros – como corresponde referir, para que o público aprenda, que é a parte mais importante deste texto. O escultor era de Florença e tinha 22 anos quando concluiu a obra].

Bem sabemos que faz parte de um crer ocidental sobre a divindade, um mito bem narrado na escultura: não precisa de palavras. O sentimento fala. Pietá não é apenas uma palavra italiana, que em Português seria piedade. É o profundo sentimento de uma mulher que dá origem a um filho e, a seguir, o perde. Não soluça, aprende a saber que a vida tem duas medidas: dar à luz (alguém aparece na vida, criado dentro do seu corpo) e saber apagar quando a luz se perde.

Buonarroti não apenas se comove, como diz a História, ao ver a sua imagem, para quem tinha perdido pai e mãe em pequeno, por ter que sair de casa para ser aprendiz de escultor, aos cinco anos, e nunca mais viu os seus familiares. Aprender é colocar numa obra o sentimento perdido.

Como o saber. Entende que as palavras falam não quando estão escritas, mas quando estão dentro da nossa afectividade e sabemos ser solidários com os outros. Michelangelo, ou Miguel Ângelo, para nós, foi-o, tanto, que nunca descansou para ensinar a saber aos outros da sua terra. Desde o seu primeiro dia, aprende o mais importante que todo o docente deve saber: a paciência, a serenidade e o esforço de definir. Durante 90 dos seus 95 anos de vida, foi capaz de entregar a sua solidariedade em textos que falam a partir da sua forma e das suas cores.

Será assim que vamos mudar o saber aprender em Portugal. Será que os mais novos vão aprender com imagens e/ou pinturas as letras necessárias para viver neste desesperado neoliberalismo que nos tem conduzido à pior crise dos últimos tempos? Quem se encarrega da educação será um novo João de Deus, um continuador de Veiga Simão? E saberá entender que se aprende a saber a partir destes textos, para que ninguém se zangue pela falta de habilitações para o magistério? Com a maior das confianças nesse elo central que é o mediador entre os que já sabem e os que estão a aprender, derivado destes textos.

Os nossos docentes combinam os textos e falam entre si, sobre os que devem ser lidos e explicados. De certeza, saber aprender começa como trabalho para o docente, a união dos progenitores perante a sua descendência, e essa descendência encontrada com a novidade das obras de arte portuguesas, que têm tantas lavras que ensinam a saber...

N.º 187, série II
Inverno 2009

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