domingo, 7 de março de 2010

A escola prisional como possibilidade de liberdade


O estudo, em desenvolvimento, surgiu nas aulas do grupo de pesquisa na UFF, onde discutíamos algumas ausências no cotidiano escolar. Dentre as ausências educacionais, que são inúmeras, lembro-me do debate a respeito do saber ouvir as experiências dos alunos, incentivá-los a narrar suas experiências, aprofundando os processos de interação grupal. A partir dos debates no grupo procurei aproximar a discussão ao tema da minha pesquisa sobre educação prisional.
Passei a conceber a troca de experiências, como produção cultural, uma possibilidade para a construção da escola como um centro (re)criador da cultura local[1], por meio das narrações dos sujeitos que convivem e praticam o cotidiano da escola Roberto Burle Marx localizada no presídio feminino Talavera Bruce, na cidade do Rio de Janeiro ? Brasil.
Questiono-me sobre o papel da escola, em especial da escola prisional, buscando dar conseqüência prática ao que nos postulam Maturana e Varella (1997) aceitar o outro como legítimo outro (p38). É interessante pontuar o quanto a realidade da escola prisional é paradoxal à realidade das escolas extra-muros (fora da prisão). Todos sabemos que a prisão é uma instituição repressora, e que a escola dentro da prisão perde uma parcela de sua autonomia, por obedecer à ordem do cárcere. Mas, mesmo vivendo sob a égide do controle, a escola consegue ainda ser um espaço de prazer, no cotidiano da vida carcerária: as presidiárias sentem prazer em freqüentar as aulas. Segundo depoimentos, obtidos durante a pesquisa, que resultou na dissertação de mestrado, constatei que a escola prisional é local de aconchego, paz e tranqüilidade. Os depoimentos a seguir corroboram esta minha percepção: ao serem entrevistadas sobre a importância e a necessidade (para elas) da escola respondem:
- "Para ocupar a mente, porque a gente lá dentro, no coletivo, fica muito estressada, a gente fica muito presa lá dentro, a gente é tratada de um jeito! Aqui na escola nós somos tratadas como gente, aqui a gente tem carinho". (Aluna A)
- "...todos na escola são compreensivos e chegam a ser um pouco psicólogos" (Aluna B).
- Nós estamos presas e não somos presas. (Aluna C)
Isso demonstra o contraponto existente entre as escolas extra-muros e as escolas prisionais, sendo esta última concebida como um local de "liberdade", lugar onde as internas podem expor suas idéias, e principalmente serem compreendidas. Local, onde elas encontram um(a) professor(a) para conversar e narrar suas experiências - muitas vezes no cotidiano da vida carcerária e nas dependências da prisão, são julgadas e punidas, sem direito a tomar a palavra em sua defesa. No cotidiano de silêncio e medo a escola ainda é o lugar da palavra e do diálogo, um espaço de liberdade. Esse mesmo interesse em ir à escola, não ocorre quando falamos das escolas fora da prisão, pois, na realidade, parece que o cotidiano das escolas extra-muros marcado pelo enclausuramento, mantendo-se obediente a uma estrutura estabelecida, em que o aluno na maioria das vezes não tem direito a falar e não é sequer ouvido, sofrendo um processo de disciplinarização.
O cotidiano da escola prisional tem me ensinado o quanto a lógica escolar pode ser fraturada e como é possível que uma outra (nova) cultura escolar se produza e se estabeleça, nas escolas extra-muros. Afirmo sem medo de errar que o cotidiano de uma prisiosioneira, tem muito a ensinar à escola extra-muros.
Acredito ser fundamental debruçarmos sobre as questões marginais ( não estou a fazer nenhum tipo de trocadilho) que nos remetam à compreensão de educação como processo cultural, para vislumbrar outras possibilidades e dimensões para a escola extra-muros.

Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. Experiência e Pobreza. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
______. O Narrador. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

Nota: 1) A esse respeito ver Pérez, Carmen Lucia Vidal . O Lugar da Memória e a memória do lugar na formação de professores: o cotidiano como espaço tempo de (re)criação da história, da memória e da cultural local. Projeto de Pesquisa. Niterói, PIBIC-UFF, 2006, p. 8




Priscila Ribeiro Gomes

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