quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Aprender a ser


Não é ao título do famoso relatório coordenado por Edgard Faure, por encomenda da UNESCO e datado de 1972, que me quero referir com a colaboração que hoje aqui trago, embora reconheça que o texto em referência bem merecia uma revisitação, dada a sua actualidade em muitos aspectos, designadamente em alguns daqueles de que me vou ocupar de imediato.
A articulação entre a aprendizagem e o sentido da existência é hoje uma questão que poderá soar a muito boa gente como destituída de todo o interesse, seja qual for a dimensão que se considere para a analisar. Na verdade, a representação dominante que se aplica à questão da aprendizagem passa bem longe do sentido da existência se por tal expressão entendermos um juízo que relacione intencionalmente o processo de aprender como um modo integrado de desenvolvimento do próprio ser humano, assumido na sua unicidade experiencial. À medida que a escola foi ocupando todo o espaço «educativo» em nome de uma legítima e muito desejável igualdade de direitos, foi remetendo para o limbo das preocupações sociais e morais o problema da especificidade da relação pedagógica, essencial ao estabelecimento de uma comunicação significativa mercê da qual o aluno possa ser reconhecido na sua identidade real. Sem esse reconhecimento, que tornará possível a construção de um projecto pessoal em busca de uma identidade potencial desejada, a pessoa do aluno corre o risco de se ver reduzida apenas à simples condição de aluno, inevitável e permanentemente disputada entre o sucesso o fracasso. O desfecho só pode ser o agravamento das desigualdades reais, reforçando a escola à saída o que era suposto combater à entrada.
A este propósito, é muito pertinente reflectir no que diz algures F. IMBERT quando escreve que "efeitos devastadores, na escola, de situações repetidas de insucesso acabam por gerar uma renúncia ao ser e consequentemente ao conhecer". Ninguém contestará que o artífice decisivo na construção da ponte entre o ser e o conhecer é a pessoa do professor, embora se reconheça com toda a simplicidade que as condições em que hoje se trabalha nessa ponte comprometem seriamente a possibilidade de ligação. Todas as reflexões que se ocupam desta problemática pedagógica, centrada na pessoa do professor como mediador da construção do aluno, põem em evidência a importância do bem-estar pessoal e do equilíbrio emocional, indissociável da confiança profissional, como condição essencial daquela ligação. Ora, é justamente isso que está em causa quando se olha para o interior da profissão a partir dos efeitos das intervenções políticas e administrativas registadas nos últimos tempos sobre a carreira dos professores. As intensas movimentações profissionais, o seu carácter compacto e massivo, simultaneamente festivo e indignado, só podem significar que os professores sentem que a sua segurança psicológica e profissional está por um fio e por isso se justifica toda a resistência, mesmo que isso possa não corresponder, de facto, à realidade. Os tempos, que aí vêm, adivinham-se como sendo de intensa competição, calculismo, estratégia e concorrência. É tempo de cada cuidar de si, ciosamente.
Que tempo sobra, então, para a disponibilidade, para a cumplicidade, para a ponte com o aluno, enquanto pessoa em construção?

Manuel Matos

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