domingo, 27 de julho de 2008

Mulheres negras invisibilizadas pela escola e na escola

Ao entrar em minha unidade escolar, onde desde o início do ano letivo de 2006, coordeno ´ações que possibilitem aos nossos mestres e nossos educandos conhecimento efetivo sobre a questão racial para além dos espaços consagrados ao tema tais como: 13 de maio ou 20 de novembro, abolição da escravatura ou morte de Zumbi dos Palmares. Na busca de uma construção de auto-estima positiva àqueles e àquelas que têm a sua história silenciada e que vêem na educação a possibilidade de ascensão social, chamou-me a atenção um mural, exposto a partir da produção realizada numa atividade nas aulas de leitura, cujo objetivo foi incentivar nossas jovens e nossos jovens a escreverem para o festival de poesia e arte, que vem ao longo dos últimos seis anos revelando talentos femininos e masculinos e apostando na interdisciplinaridade no fazer pedagógico daquela escola, que é pública e com uma clientela reconhecidamente das classes populares. O objetivo do mural era contribuir para que a comunidade escolar reconhecesse nossas poetas que, escrevendo sobre o cotidiano, o singular, as coisas simples, o “pouco importante”, nos estimulam a desenvolver a habilidade de reconhecer a poesia e escrever com poesia. A atividade foi desenvolvida com competência, não fosse meu olhar perguntador às imagens atribuídas ao “conhecendo nossos poetas”, título do painel. O leitor curioso deve estar a se perguntar que imagens foram estas que intrigaram e intrigam esta autora? Esta autora responde prontamente: a invisibilidade de poetas negras e poetas negros e a visibilidade somente de poetas brancos, numa sociedade reconhecidamente multiétnica e numa escola que busca em sua prática cotidiana, afirmação de todos e não negação de muitos. A constatação de que o conhecimento nem sempre leva ao reconhecimento faz-me indagar no tocante ao feminino, excluindo neste vagar o masculino por questões identitárias: sou mulher negra e professora que luta pela visibilidade de todas nós, independentemente do status. O que diferencia uma mulher de outra mulher? A cor da pele? As vivências cotidianas de luta? As buscas incessantes pela sobrevivência? Ou a vida? O que muda. Que se transforma. Ou será que as vidas das mulheres negras, que o sabem, nesta sociedade marcada pelo machismo, elitismo e racismo, são construídas nas conquistas cotidianas, nos SIM que a perda do medo de se expor se revelam? SIM, esses que valem mais do que os murais de escolas que ignoram a poesia negra em seus fazeres cotidianos? Que invisibiliza a beleza do ser mulher negra, desqualificando-nos enquanto
produtoras de saberes e fazeres? Pensar a diferença do ser mulher ou as diferenças do ser Mulher Negra é ousar visibilizar as lutas das Luiza Mahin, Nzinga, Ruth de Souza, Elisa Lucinda, Mãe Beata, Dandara, Clementina, Azoilda, para ficarmos apenas em algumas. Professoras, poetas, intelectuais, escritoras, artistas, lavadeiras, arrumadeiras, passadeiras, mães, irmãs, namoradas, esposas, rainhas e amantes, sozinhas ou acompanhadas que, em seus cotidianos construíram, constroem e reconstroem outras identidades, além das historicamente impostas e aceitas. Constroem com dignidade e poesia e merecem ser reconhecidas e conhecidas. Este é o espaço que nossas poetisas e musas de tantos poemas pode e deve ocupar nos murais de nossas escolas. Espaço este que tem na implementação da lei 10.639, que torna obrigatório nos estabelecimentos de ensino básico o ensino de História da África e da cultura afro-brasileira. Um avanço, sem dúvida, pois esta lei é fruto de uma luta histórica dos movimentos negros brasileiros, organizados.

Janete Santos Ribeiro
GRUPALFA – Campo Cotidiano. Universidade Federal Fluminense (UFF), Rio de Janeiro

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