segunda-feira, 7 de julho de 2008

Educação: "Melhorias estatísticas não vão ajudar o país"

"Qual o perfil de cidadão que desejamos para Portugal?". A resposta a esta questão devia edificar o sistema educativo, defende um sociólogo ao JN. Os docentes não falam em facilitismo, mas estão preocupados.

São hoje afixadas nas escolas as notas dos exames de 12º ano. Na sexta-feira, o Ministério da Educação revelou as médias das classificações: houve uma melhoria generalizada, principalmente a Matemática. Esses resultados são fruto do investimento no processo de aprendizagem ou de um sistema facilitista? O JN fez esta pergunta a presidentes de associações de professores e docentes universitários. Nenhum classificou o sistema de facilitista, a palavra nem sequer foi mencionada, mas todos criticaram a focalização para os resultados estatísticos.

"O país vai pagar caro por esta política educativa. As estatísticas não vão ajudar o desenvolvimento" do país, considera Mário de Carvalho. Professor universitário, ex-dirigente da Fenprof, foi o único a reconhecer ao JN que os alunos lhes estão a chegar pior preparados. "Nos Estados Unidos e noutros países europeus quem chumba no Ensino Superior "é convidado a sair por desprestigiar os estabelecimentos", a exigência devia ser regra, considera.

"O nosso sistema de ensino está longe de favorecer o desenvolvimento do país", concorda Ivo Domingos. O sociólogo de Educação da Universidade do Minho defende o maior envolvimento e responsabilização dos agentes formativos, nomeadamente as famílias. "Qual é o perfil do cidadão que desejamos para Portugal?" - a resposta a esta questão deveria edificar o sistema educativo alega. Os pais não podem "fazer trabalhos de casa" aos filhos ou incentivá-los a "copiar" só porque é mais simples.

"Vivemos uma preocupante laicização do ensino e da avaliação escolar", alerta, criticando a preocupação excessiva não só deste Ministério como dos anteriores com "uma certificação de sucesso". Dois indicadores deste sistema são "a quantidade de alunos com várias negativas no 1.º e 2.º período que depois passam de ano" e o facto de haver, "cada vez mais, predisposição para copiar". Se os alunos não aprenderem além dos conteúdos curriculares "competências racionais, morais e éticas não terão problemas, quando forem adultos, em desrespeitar o código da estrada ou fugirem ao fisco. Um sistema que não é planeado irá sempre favorecer os interesses corporativos, por vezes ilegítimos", concluiu.

"O problema não está nos alunos bem sucedidos mas nos que perdemos". Rui Trindade também critica um sistema focalizado para as notas: há mais escola além dos exames. Esses resultados não revelam o nível de aprendizagem. O professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto defende - tal como todos os outros docentes ouvidos pelo JN - um sistema que não facilite os chumbos mas a recuperação dos alunos. É o recomendado pela OCDE e pela UNESCO. Entre 2005 e 2007 a taxa de reprovação em Portugal desceu dos 10,2 para os 5,5% nos primeiros seis anos de escolaridade. O problema, alertam, é a falta de meios e planeamento.

"Ainda estamos a muitas décadas da Finlândia", sublinha Rita Bastos, presidente da Associação de Professores de Matemática. "A investigação mostra que a reprovação não resolve nenhum problema nem para os alunos nem para as escolas mas os finlandeses não têm os nossos problemas económicos, sociais e culturais e todos eles entram na escola".

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