domingo, 18 de maio de 2008

Obras de leitura obrigatória afastam alunos do Secundário

Há uma contestação generalizada às obras de leitura obrigatória na disciplina de Português por parte dos alunos do ensino secundário. A denúncia não seria uma total novidade se uma docente da Escola D. Pedro V, em Lisboa, não se tivesse dado ao trabalho de ir saber porquê.

Maria Gabriela Silva fez um estudo de campo, entre 2000 e 2004, e concluiu que há muito de errado nas escolhas das leituras para a disciplina de Língua Portuguesa. E por isso recomenda ao ministério da Educação que reformule tudo, ou quase tudo, o que diz respeito à definição dos programas de leitura para os adolescentes.

"Sabíamos há muito das reais dificuldades dos adolescentes perante o acto de ler, mas esta pesquisa veio esclarecer-nos sobre a situação. Concluímos que num razoável número de casos a leitura precária se deve ao facto de não existir, antecipadamente, uma correcta selecção dos livros que chegam à mão das crianças e dos adolescentes", refere Maria Gabriela Silva na obra "Ler e Amar na Adolescência", lançada no passado mês de Abril pela Livros Horizonte.

Ao JN, a professora de Português, doutorada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, salienta "Apercebi-me do descontentamento dos alunos em face de grande parte das leituras, porque as consideravam completamente desfasadas dos seus objectivos e interesses".

"Penso que é necessário constituir-se um grupo de estudo neste domínio que parta de uma avaliação baseada na sensibilidade e na cultura geral dos adolescentes, que englobe professores, pediatras, sociólogos, psicólogos e ou psiquiatras", sublinha. Ou seja, a escolha das obras de leitura obrigatória não pode ser deixada apenas aos professores de Português.

O estudo, refere por seu lado o psiquiatra Daniel Sampaio no prefácio ao livro, "propõe uma ruptura com o modelo tradicional de encarar as leituras obrigatórias - tantas vezes apenas um exercício apressado de consulta a resumos de má qualidade".

Por isso, Gabriela Silva vai ao ponto de equacionar mesmo a hipótese de o ministério da Educação implementar uma nova disciplina nos currículos escolares - a Literatura de Afectos. "Tratar-se-á de uma área de trabalho específica, vocacionada para o tratamento dos afectos, a partir da literatura". O objectivo é "antes de mais que eles tenham o gosto pelo livro, a partir de uma relação de afecto, por via de histórias em que haja uma ligação ao "Eu" de cada um".

Para o trabalho, a docente releu os programas de Português dos 10º, 11º e 12º anos, em particular as obras de leitura obrigatória, em vigor desde 1993 (algumas modificações foram, entretanto, introduzidas) e elaborou inquéritos à população estudantil do ensino secundário nas escolas do continente.
JN

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